Passei a semana inteira olhando pra esse gráfico do ouro. E sinceramente? Foi brutal.
Quatro perdas semanais consecutivas — o pior período desde o terceiro trimestre de 2025. De US$ 5.321 em abril até US$ 3.959. Um drawdown de 25% do pico ao fundo. Isso abala até os touros mais cascudos, pode acreditar.
Sexta-feira deu um pequeno alívio, saltando pra US$ 4.088. Mas aqui vai a pergunta de um milhão de dólares: isso é fundo de capitulação ou só mais um dead cat bounce?
Deixa eu te mostrar o que tô vendo.
O Fed não vai cortar tão cedo
Kevin Warsh — sucessor do Powell — deixou dolorosamente claro na primeira reunião do FOMC. A luta contra a inflação não acabou. PCE em 4,1%. Pedidos de seguro-desemprego em 215 mil. Nove dos 19 dirigentes ainda de olho em um aumento.
A fantasia de corte de juros do mercado? Desfeita em uma única declaração. O CME FedWatch agora mostra 83% de probabilidade de um aumento até dezembro.
Pra ouro, isso é matemática brutal. Rendimentos reais mais altos significam maior custo de oportunidade pra manter um ativo de rendimento zero. Os fluxos de ETF contam toda a história — saídas persistentes durante o mês inteiro.
Geopolítica virou a chave
19 de junho. Memorando de Entendimento de paz entre EUA e Irã. O cenário de risco inteiro foi resetado. O petróleo WTI devolveu todo o prêmio de conflito — de volta a US$ 69. A demanda por ouro como porto seguro desabou junto. Estreito de Ormuz reabre, e o ouro perde um pilar que o sustentava há meses.
Mas tem um porém... os bancos centrais
Essa parte é interessante. Pesquisa do World Gold Council mostra que 89% dos gestores de reservas planejam aumentar posições em ouro. É por isso que saltamos de US$ 3.959 pra US$ 4.088 em 48 horas. Bancos centrais não negociam que nem hedge fund — eles acumulam independente da política do Fed. Isso continua sendo a oferta estrutural mais forte abaixo do mercado.
O quadro técnico? Falso rompimento de livro-texto.
Segunda a quarta: moendo pra baixo, testando abaixo de US$ 4.000. Quinta: mínima de US$ 3.959 com um longo pavio inferior se formando. Sexta: alta de 1,35% de volta acima de US$ 4.080.
Três coisas que me chamaram atenção:
Suporte em US$ 4.000? Falso
O número redondo se manteve brevemente na quinta, mas não forneceu suporte significativo em termos reais. O suporte real tá em US$ 3.959 (a mínima semanal), depois US$ 3.927 e US$ 3.886. Se o NFP romper US$ 4.000 de forma decisiva, não espere que ele se mantenha na segunda rodada.
Resistência em US$ 4.100 segurando
Próximo de US$ 4.100, mas sem passar por ele — esse é um mercado em genuíno desacordo. A pesquisa Kitco confirma: 44% baixistas, 28% altistas, 28% neutros. Ninguém tem convicção aqui.
Volume no rali de sexta
O rali de sexta-feira veio com volume crescente — caçadores de pechinchas entraram com ordens de tamanho institucional. Mas um dia não faz uma tendência. Cuidado.
Agora vamos falar do elefante na sala: o dólar.
DXY em 101,43 — subindo pela segunda semana consecutiva. O dólar domina tudo. A queda do dólar na sexta-feira foi o gatilho pro rali do ouro. Simples assim.
USD/JPY em 161,74 — uma mínima de 40 anos pro iene, apesar do BOJ ter elevado a taxa pra 1%. Isso mostra que a força real do dólar é mais profunda do que qualquer dado isolado.
EUR/USD em 1,1384 — o euro tá se segurando, mas os ventos contrários europeus (custos de energia, desaceleração das exportações) limitam qualquer rali.
O quadro macro: o dólar tá forte, e enquanto ele permanecer forte, os ralis do ouro serão limitados. Todo touro do ouro devia vigiar o DXY como um falcão.
O NFP da próxima semana é o evento definidor. Folhas de pagamento não-agrícolas de 3 de julho. Três cenários:
Cenário 1: Payroll forte (>250 mil)
Dólar dispara → ouro retesta US$ 3.959 → possivelmente US$ 3.927. Quatro perdas semanais se tornam cinco ou seis. Tendência baixista confirmada.
Cenário 2: Payroll mediano (150-250 mil)
Preso num intervalo entre US$ 4.000 e US$ 4.150. O mercado espera pelo próximo catalisador — CPI, discurso do Fed, tanto faz.
Cenário 3: Payroll fraco (<150 mil)
Expectativas de aumento de juros desabam → dólar despenca → ouro voa em direção a US$ 4.150-4.200. A mínima de US$ 3.959 é confirmada como um falso rompimento.
O espectro de analistas tá todo bagunçado. Incerteza genuína.
Capital Economics diz US$ 3.500 no fim do ano — resiliência econômica mais juros altos por mais tempo. Macquarie em US$ 4.300 em média, rebaixado de US$ 4.400. Deutsche Bank diz US$ 4.300 no terceiro trimestre, US$ 4.800 no quarto trimestre — recessão mais amena, recalibrado. ING em US$ 4.300 no terceiro trimestre, US$ 4.600 no quarto trimestre — abaixo das previsões anteriores. Goldman Sachs em US$ 4.900, rebaixado de US$ 5.000. Bank of America em US$ 6.000 — mantido, mas com prazo estendido.
Os touros veem desdolarização e compras de bancos centrais. Os ursos veem uma economia dos EUA resiliente que não vai deixar os juros caírem. Ambos não podem estar certos. O NFP vai ser o primeiro teste.
Dez anos de tela, e aqui vai o que a estrutura me diz:
A tendência no D1 ainda é baixista. O H4 mostra uma divergência que merece atenção.
O salto de sexta-feira teve peso estrutural — aconteceu sob pressão negativa máxima. Dólar forte. Juros subindo. Saídas de ETF. Quando o preço se mantém sob esse tipo de pressão, algo tá pegando ofertas por baixo. Essas ofertas parecem dinheiro de banco central, não especulação de varejo.
Meu plano
Segunda a quinta? Vou ficar de mãos atadas. A oscilação pré-NFP é a melhor maneira de ser picado. Negociar no intervalo entre US$ 4.000 e US$ 4.150? Deixa outro correr atrás desses ticks. A estrutura não tá limpa nessa zona, e eu não negocio estrutura que não tá limpa.
Após o NFP: dois cenários, dois planos.
Se o NFP abrir caminho pra cima — abaixo de 150 mil — procuro um pullback no H4 pra entrar comprada. Primeiro alvo US$ 4.200, segundo US$ 4.250.
Se o NFP confirmar a tendência de baixa — acima de 250 mil — não vou vender. Espero a estrutura se reformar mais baixo, depois procuro vendas a partir da resistência. US$ 3.886 é o próximo piso real. Não tento adivinhar.
E mandamento quatro: Risco Primeiro. Máximo de 2%, sem exceções. Não sei o que o NFP vai dizer, e ninguém que afirma saber também sabe. A única coisa que controlo é minha gestão de risco.
Não é aconselhamento financeiro. 10 anos de tela, uma opinião. Estrutura. Timing. Execução.
